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domingo, 26 de setembro de 2010

Perspectiva negligenciada

Olá pessoal,

Na última quarta-feira, participei de uma reunião em que foram discutidas propostas de identificação de boas práticas internacionais em diversos temas de interesse do SEBRAE. Uma consideração me fez refletir. No momento em que apontei o reconhecimento de programas de apoio a micro e pequenas empresas, sob o enfoque de gênero, de instituições chilenas, uma das participantes da reunião ressaltou seu desapreço por medidas como essas, segundo ela, segregacionistas. Acredito que o debate sobre esse tema precisa ser ampliado. Sinto que a igualdade de gênero é aspecto ainda não muito bem compreendido pela sociedade brasileira; tomo como indicador, apesar de pouco preciso e expressivo, a debilidade no tratamento do tema pelo SEBRAE.

A sociedade, seus padrões, valores e anseios, são fruto de construções coletivas. A hierarquização de funções, a definição de papéis, a conceituação de justiça, entre outros, são processos históricos, que se remodelam constantemente, adaptam-se a novas circunstâncias e caracterizam algumas das bases sociais da vida de um grupo. Atualmente, no mundo ocidental, guerreiros não têm o mesmo status que apresentavam em Esparta, no século VI a.C; homens não são mais criados, em sua maioria, com a função de guerrear e; a presença de novos hilotas representaria evidente afronta aos princípios mais básicos de vida em sociedade. Novas construções surgiram, erradicaram padrões anteriores ou, simplesmente, adaptaram-nos a novas circunstâncias. Sendo construtos sociais, os temas aqui tratados não são óbvios nem inerentes a qualquer grupo ou dados naturais aos quais à sociedade simplesmente se deparou, mas resultantes de processos históricos, de choque de forças e de mentalidades e de novas conjunturas. A definição de papéis entre homens e mulheres se insere nessa perspectiva.

Não é natural que associemos características como emoção, carinho e sensibilidade a mulheres e razão, poder e força a homens. Tampouco é natural que homens sejam responsáveis pela guerra e pelo governo e, mulheres por cuidar do lar e das crianças. Muitos diriam que características biológicas condicionariam a estruturação dos papéis sociais atribuídos a homens e mulheres. Essa afirmação não explica, no entanto, a existência de sociedades matriarcais, como as icamiabas, tampouco, a história de comando de Boudicca, rainha da tribo dos icenos. Relações de gênero, de todos os aspectos culturais atrelados à idéia de feminino e masculino são, portanto, construídas socialmente. No Brasil, a construção dessas relações resulta numa série de comportamentos sociais geradores de desigualdades, infelizmente, muitas vezes, invisibilizadas.

A sociedade brasileira tem traços fortemente patriarcais. À mulher, historicamente, foram resguardadas funções familiares de zelo; ao homem, tomar parte na esfera pública, comandar e sustentar seus dependentes. Não é à toa que o Brasil nunca teve uma presidenta, disparidades salariais entre homens e mulheres sejam visíveis em estatísticas oficiais e a maior parte dos chefes de família são representantes do sexo masculino. O SEBRAE, agente indutor do desenvolvimento do país, deveria também responder a essa situação e incorporar em seus programas e ações uma perspectiva de gênero. Não há desenvolvimento com justiça se metade da população brasileira segue com acesso restrito aos seus benefícios.

As ações do SEBRAE em prol da igualdade de gênero ainda são escassas e pouco conhecidas. O tema sequer integra o direcionamento estratégico ou representa aspecto tratado nas metas mobilizadoras da entidade. Há grandes possibilidades em se aprender com programas de instituições como a Corporación de Fomento de la Producción (CORFO) e o Servicio de Cooperación Técnica (Sercotec) que deveriam ser investigadas. Projetos devem ser elaborados visando à estruturação de um programa de apoio a micro e pequenas empresas, sob o enfoque de gênero. O projeto aplicativo a ser realizado pelos trainees pode ser uma oportunidade.

É importante ter em mente que compreender processos históricos como construções sociais é fato extremamente complexo. Tendemos a analisá-los como algo dado, desde sempre existente. Tendemos, também, a julgar ações voltadas a públicos específicos como preconceituosas e segregacionistas. A dificuldade nessas análises é compreender que há lacunas históricas e que, pelas relações de poder construídas socialmente, grupos sociais (homens, mulheres, brancos, negros, indígenas) se encontram em patamar de oportunidades diferenciados, necessitando de iniciativas específicas para sua ascensão. Tratar de maneira igual os desiguais denota falta de atenção às causas estruturais das dimensões da exclusão social. A manutenção do status quo dificilmente garantirá igualdade de condições. O SEBRAE, em seus programas e projetos, deve atentar para isso, em sua busca pelo desenvolvimento da população brasileira.

Arrivederci.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A difícil arte de decidir

Olá pessoal,


A revista Você S/A publicou, no mês de agosto, uma edição especial sobre programas de trainee. Identifiquei-me, particularmente, com a reportagem, intitulada “A Hora da Decisão”, relativa ao difícil processo de escolha, por parte do trainee, de sua futura área de atuação. Apesar do programa de trainee do SEBRAE Nacional terminar apenas em março de 2010, gostaria de compartilhar o paralelo que tracei entre esta reportagem e o momento reflexivo em que me encontro atualmente. Abordarei, primeiramente, a singularidade do programa de trainee do SEBRAE Nacional e, em seqüência, comentarei sobre sua estrutura e a razão pela qual me sinto em importante momento de decisão.

Percebo que a metodologia do SEBRAE Nacional de recrutamento de trainees é diferente das adotadas pelos demais programas existentes no país. O SEBRAE Nacional não é corporação de direito privado isenta de particularidades de direito público. Seu processo seletivo se faz mediante concurso pautado, unicamente, em análise curricular e prova de conhecimentos. Não há etapas comportamentais, dinâmicas de grupo, entrevistas ou painéis de negócios. É importante apontar, no entanto, que o processo de escolha de trainees não deixa de ser meritocrático, uma vez que são aprovados apenas aqueles que atingiram maior pontuação na prova de conhecimentos.

O programa de trainee do SEBRAE Nacional se espelha, parcialmente, no sistema de job rotation. Parcialmente, porque não há tempo hábil (oito meses de programa) ao trainee – não por falha da instituição, mas em razão da metodologia de priorização de tempo e recursos escassos adotada -, para passar por todas as 20 unidades do SEBRAE Nacional e conhecer os 26 SEBRAE/UF que compõem o sistema. A entidade optou, portanto, pela realização, por trainee, de apenas dois rodízios em unidades do SEBRAE Nacional e um estágio de três semanas em um SEBRAE/UF

Nós, trainees do SEBRAE Nacional, sabemos, desde os primeiros momentos na instituição, que não teremos oportunidade de conhecer profundamente todas as áreas do sistema; que teremos de optar. Esta necessidade de decidir, embora não nos caiba integralmente (pois as alocações nos rodízios resultam do interesse do trainee, da avaliação de seu perfil pela Unidade de Gestão de Pessoas e da aprovação pelo gerente da área), é momento extremamente complexo. Temos de analisar diversas variáveis – expectativas, capacidade de contribuição e afinidade com a área, plano de trabalho da unidade, etc. – para tomarmos uma decisão consistente, mas, independentemente da escolha feita, a curiosidade por outras áreas sempre restará. 

Estamos nos aproximando do final do primeiro rodízio (08 de outubro). Conjeturei, mas ainda não refleti profundamente sobre em que área pretendo investir esforços. Sei, no entanto, que a decisão que tomar terá grande peso sobre a minha alocação definitiva, em abril de 2011. Acredito, portanto, que, embora não seja, integralmente, caminho sem volta, a escolha atual consiste em espécie de path dependence – idéia que consiste na identificação de que decisões futuras são limitadas por decisões passadas -, que orientará meus futuros passos na entidade. Não posso subestimá-la ou deixar de lhe dar a devida importância.

A estrutura do programa de trainee do SEBRAE Nacional é peculiar e impele os participantes a tomar decisões importantes desde os primeiros meses na instituição. A revista Você S/A retratou experiências de trainees que tiveram de tomar decisões sobre seu futuro na empresa após terem passado por diversas áreas e conhecido seus programas e diretrizes. No SEBRAE Nacional é diferente. Sinto-me como se estivesse estruturando minha carreira desde o início do programa. Ao mesmo tempo em que tenho interesse por unidades de articulação, gostaria de trabalhar com o público externo do SEBRAE ou integrar equipes voltadas ao conhecimento. Não posso ter todas. Minha saída: decidir. 

Arrivederci.

domingo, 12 de setembro de 2010

Almoço entre amigos...

Bom fim de tarde pessoal,

A tarde deste domingo foi diferente das demais. Alguns de nós, trainees do SEBRAE Nacional, reunimo-nos na casa de Talita, trainee lotada na Diretoria de Administração e Finanças, para discutirmos pontos positivos e negativos das unidades a que estamos vinculados e apontarmos lacunas e possíveis temas para projetos futuros. Espécie de reunião de articulação, não me recordo de experiências semelhantes.

O dia foi muito produtivo. Talita, Larissa, Tatiana, Gabriela, André, Lucas, Hugo, Fábio, Rafael e eu fomos capazes de disseminar visões e contribuir para o processo de conhecimento da instituição em que trabalhamos. Descobri que a Unidade de Marketing e Comunicação tem atribuições relativas à avaliação de projetos, a Unidade de Capacitação Empresarial subdivide-se em área de educação e área de informação e pessoas responsáveis por acompanhamento legislativo integram a Unidade de Políticas Públicas. É evidente que estes são apenas alguns exemplos do rol de informações apresentado. Mais fundamental: idéias interessantes surgiram (elaborar sistemas de gestão do conhecimento, arquitetar projetos com perspectiva de gênero, criar banco de talentos, etc.) e problemas comuns não deixaram de ser elucidados (falha articulação e integração entre as unidades, dificuldades em identificar atribuições das distintas áreas, etc.).

Não cabe aqui, apresentar uma ata do que foi discutido ou enfatizar as diferentes posições daqueles presentes. O fundamental, em minha opinião, não são os resultados práticos obtidos, mas o modelo de governança criado, em que a articulação, o auxílio mútuo e as críticas produtivas se inseriram como características positivas de nosso grupo.

É evidente que a tarde não se resumiu a discussões relativas ao SEBRAE. Almoço, piscina e brincadeiras caracterizaram a maior parte do dia. Conseguimos ser eficazes, ao atingir o resultado proposto inicialmente, mas incrementamos nosso momento juntos com atividades típicas de final de semana. A pequena Beatriz, presente na casa da Talita hoje à tarde, agradece.
 
Espero que este tipo de encontro continue a acontecer. É bom para o SEBRAE, para nossa integração e para nossa mente. Criamos, com esses eventos, vínculos de trabalho, mas, fundamentalmente, de amizade. Obrigado a todos que compareceram e tornaram esta tarde tão especial.

Arrivederci.

domingo, 5 de setembro de 2010

Encomex Mercosul

Boa noite pessoal,


Na segunda-feira, viajei para Porto Alegre. Motivo: participar do encontro Encomex Mercosul, realizado entre os dias 31 de agosto e 1 de setembro. Pretendo, hoje, apresentar breve panorama geral do evento e considerações pessoais acerca dos pontos tratados.

Os Encontros de Comércio Exterior (Encomex) surgiram, em 1997, sob iniciativa da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Secex/MDIC), com o objetivo de prover espaço de encontro entre representantes do poder público e iniciativa privada; buscar soluções e alternativas para problemas no procedimento de exportação, estimular maior participação do empresariado brasileiro no comércio internacional e propiciar seu engajamento no processo exportador são suas motivações.

A 2ª edição do Encomex Mercosul, realizada em Porto Alegre, reuniu participantes de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Peru, Venezuela, Irlanda, Dinamarca, Suécia, entre outros países. Diversas delegações internacionais, 1100 rodadas de negócios, unindo aproximadamente 150 empresas e 15 stands empresariais caracterizam, parcialmente, essa edição do evento.

O SEBRAE foi representado, na abertura oficial do evento, por Clóvis Masiero, Gerente Setorial da Indústria do Sebrae/RS; Iuri Andrade e Luciana Pecegueiro, analistas da Unidade de Acesso a Mercados do SEBRAE Nacional, palestraram sobre temas relativos a comércio intrafronteiriço e a inteligência comercial, respectivamente. Minha participação foi mais discreta. Acompanhei palestras, representei o SEBRAE em seu stand e tomei parte em um evento paralelo sobre integração produtiva.

A proposta do Encomex Mercosul é inegavelmente relevante para o compartilhamento de informações acerca de comércio exterior e para o processo de integração regional. Acredito, porém, que mudanças em sua fórmula são essenciais para a consecução de sua missão. O foco do evento atrai grande número de estudantes; a participação de empresários, por sua vez, precisa, ainda, ser incrementada. O formato de seminários pouco dinâmicos e a falta de incentivos à participação ativa da platéia são empecilhos a maior presença do empresariado nacional.

O evento, de forma geral, foi bastante proveitoso. Compreendi a importância de espaços de networking para a criação de projetos conjuntos, apreendi procedimentos para construção de grupos de trabalho em prol de objetivos comuns, identifiquei pontos interessantes relacionados ao comércio exterior e verifiquei o impacto de stands institucionais para o atendimento de públicos específicos. Maiores informações são oferecidas por Welber Barral, Secretário de Comércio Exterior do MDIC: http://www.youtube.com/watch?v=OZ1cOfeTbbM

Arrivederci.