Olá pessoal,
Diversas exposições e documentos apontam para aspectos culturais do povo brasileiro como fatores de entrave ao empreendedorismo nacional. Creio que há interessantes pontos relacionados com esse pensamento que devem ser apresentados. O foco desse post, portanto, será a ênfase nas peculiaridades da lógica cultural brasileira frente ao trabalho, somada ao aparente paradoxo referente à essencialidade das micro e pequenas empresas (MPE’s) para o funcionamento da economia e a sua “fama” de segundo escalão.
Tomando como ponto de partida a visão brasileira frente ao trabalho, penso existir aparente paradoxo no modo como a sociedade brasileira se posiciona quanto ao tema. Ao mesmo tempo em que sentimos, conforme Ricardo Caldas assinalara, uma possível falta de "cultura do trabalho" na sociedade brasileira - cultura não intrínseca ao povo brasileiro, mas derivada de aspectos históricos e estruturais diversos - verificamos, conforme a pesquisa GEM demonstra, que há, no Brasil, certa valorização ou admiração dos empreendedores ou pessoas que conseguem viver de seu próprio esforço. Em outros termos, vemos que a sociedade brasileira, apesar de não ser muito afeita à tomada de riscos e crescimento crescente, optando, geralmente, por estabilidade e segurança, aponta para a valorização daqueles que lhe são diferentes. Parece, no caso, que admiramos aqueles que não são como nós, aqueles que buscam por empreendedorismo e conseguem seu sustento por sua ousadia, a despeito de não termos coragem ou incentivos para fazer o mesmo. Acredito que há, porém, uma distinção essencial a ser elaborada. O culto ao empreendedorismo é lançado àqueles que conseguem montar empreendimentos de claro destaque social, independentemente do porte da empresa, enquanto que empreendedores com menos lastro ou imagem figuram como "coitados" e sofredores.
É exatamente nesse ponto que penso estar presente o paradoxo do empreendedorismo da micro e pequena empresa no Brasil: a evidente centralidade do papel das MPE's para o desenvolvimento nacional em contraste com a falta de olhares para o seu real significado econômico-social. Ao mesmo tempo em que as MPE's respondem por cerca de 99% das empresas, 52% dos empregos formais - e por 96% dos empregos formais criados nos últimos 10 anos - e 20% do PIB no Brasil, o real dimensionamento desses números parece obscuro para o público em geral. O sonho do brasileiro ainda é ganhar na loteria, tornar-se servidor público ou funcionário de uma grande empresa. É claro que todos nós já tivemos sonhos de abrir o próprio negócio, mas deixamos de ousar e não percebemos que aqueles que ousaram e ousam são essenciais para o funcionamento da nossa sociedade.
O apontamento desses tópicos permite a reflexão sobre a evidente disparidade entre como pensamos e como nossa sociedade está estruturada para funcionar. As MPE's, claramente, têm fundamental importância econômico-social no Brasil, mas a lógica cultural parece relegar essa essencialidade à segundo plano. Relativa aversão ao trabalho e olhares tortos ao empreendedorismo de baixo dinamismo, geralmente representado por empreendedores por necessidade, ainda são quadros corriqueiros. Se a estrutura macroeconômica não contribui para maior ousadia e ambição da população, fator ainda mais básico se encontra nos alicerces da estrutura social: sua capacidade de refletir e inventar novos paradigmas culturais.
Arrivederci.
olá Eduardo. paz.
ResponderExcluirBeleza de reflexões, parabéns!
Fica claro que você realmente "ouviu" o que foi falado sobre empreender no brasil.
Fica clara a enorme missão do SEBRAE neste contexto complexo e com miríades de MPEs precisando de um norte para alcançarem seus reais objetivos no mercado em que estão inseridas.
Grande será a contribuição de cada um de vocês Trainees para a melhoria da situação hoje existente nas MPEs.
Espero que cada aprendizado seja "guardado" lá naquela gavetinha cerebral do não esquecimento destas realidades, e que será o dia a dia do seu futuro desempenho como colaborador SEBRAE.
Muito bom, mesmo.
big abraço. ivan lopes - blogueiro Trainees 2010