Olá pessoal,
Na última quarta-feira, participei de uma reunião em que foram discutidas propostas de identificação de boas práticas internacionais em diversos temas de interesse do SEBRAE. Uma consideração me fez refletir. No momento em que apontei o reconhecimento de programas de apoio a micro e pequenas empresas, sob o enfoque de gênero, de instituições chilenas, uma das participantes da reunião ressaltou seu desapreço por medidas como essas, segundo ela, segregacionistas. Acredito que o debate sobre esse tema precisa ser ampliado. Sinto que a igualdade de gênero é aspecto ainda não muito bem compreendido pela sociedade brasileira; tomo como indicador, apesar de pouco preciso e expressivo, a debilidade no tratamento do tema pelo SEBRAE.
A sociedade, seus padrões, valores e anseios, são fruto de construções coletivas. A hierarquização de funções, a definição de papéis, a conceituação de justiça, entre outros, são processos históricos, que se remodelam constantemente, adaptam-se a novas circunstâncias e caracterizam algumas das bases sociais da vida de um grupo. Atualmente, no mundo ocidental, guerreiros não têm o mesmo status que apresentavam em Esparta, no século VI a.C; homens não são mais criados, em sua maioria, com a função de guerrear e; a presença de novos hilotas representaria evidente afronta aos princípios mais básicos de vida em sociedade. Novas construções surgiram, erradicaram padrões anteriores ou, simplesmente, adaptaram-nos a novas circunstâncias. Sendo construtos sociais, os temas aqui tratados não são óbvios nem inerentes a qualquer grupo ou dados naturais aos quais à sociedade simplesmente se deparou, mas resultantes de processos históricos, de choque de forças e de mentalidades e de novas conjunturas. A definição de papéis entre homens e mulheres se insere nessa perspectiva.
Não é natural que associemos características como emoção, carinho e sensibilidade a mulheres e razão, poder e força a homens. Tampouco é natural que homens sejam responsáveis pela guerra e pelo governo e, mulheres por cuidar do lar e das crianças. Muitos diriam que características biológicas condicionariam a estruturação dos papéis sociais atribuídos a homens e mulheres. Essa afirmação não explica, no entanto, a existência de sociedades matriarcais, como as icamiabas, tampouco, a história de comando de Boudicca, rainha da tribo dos icenos. Relações de gênero, de todos os aspectos culturais atrelados à idéia de feminino e masculino são, portanto, construídas socialmente. No Brasil, a construção dessas relações resulta numa série de comportamentos sociais geradores de desigualdades, infelizmente, muitas vezes, invisibilizadas.
A sociedade brasileira tem traços fortemente patriarcais. À mulher, historicamente, foram resguardadas funções familiares de zelo; ao homem, tomar parte na esfera pública, comandar e sustentar seus dependentes. Não é à toa que o Brasil nunca teve uma presidenta, disparidades salariais entre homens e mulheres sejam visíveis em estatísticas oficiais e a maior parte dos chefes de família são representantes do sexo masculino. O SEBRAE, agente indutor do desenvolvimento do país, deveria também responder a essa situação e incorporar em seus programas e ações uma perspectiva de gênero. Não há desenvolvimento com justiça se metade da população brasileira segue com acesso restrito aos seus benefícios.
As ações do SEBRAE em prol da igualdade de gênero ainda são escassas e pouco conhecidas. O tema sequer integra o direcionamento estratégico ou representa aspecto tratado nas metas mobilizadoras da entidade. Há grandes possibilidades em se aprender com programas de instituições como a Corporación de Fomento de la Producción (CORFO) e o Servicio de Cooperación Técnica (Sercotec) que deveriam ser investigadas. Projetos devem ser elaborados visando à estruturação de um programa de apoio a micro e pequenas empresas, sob o enfoque de gênero. O projeto aplicativo a ser realizado pelos trainees pode ser uma oportunidade.
É importante ter em mente que compreender processos históricos como construções sociais é fato extremamente complexo. Tendemos a analisá-los como algo dado, desde sempre existente. Tendemos, também, a julgar ações voltadas a públicos específicos como preconceituosas e segregacionistas. A dificuldade nessas análises é compreender que há lacunas históricas e que, pelas relações de poder construídas socialmente, grupos sociais (homens, mulheres, brancos, negros, indígenas) se encontram em patamar de oportunidades diferenciados, necessitando de iniciativas específicas para sua ascensão. Tratar de maneira igual os desiguais denota falta de atenção às causas estruturais das dimensões da exclusão social. A manutenção do status quo dificilmente garantirá igualdade de condições. O SEBRAE, em seus programas e projetos, deve atentar para isso, em sua busca pelo desenvolvimento da população brasileira.
Arrivederci.

Você abordou um tema muito oportuno. Para quebra um ciclo de preconceito é preciso lançar mão de um preconceito reverso para que a igualdade seja atingida.
ResponderExcluirPode-se analisar, inicialmente, o prêmio Sebrae Mulher Empreendedora como algo sexista. Porém, se o contextualizarmos em uma sociedade ainda machista como o Brasil, notamos a importância desse reconhecimento.
A pesquisa GEM mostrou que há mais mulheres empreendedoras que homens. Porque os núcleos de representação do setor tem tão pouca presença feminina afinal?
Ótimo post!
ResponderExcluirConcordo com você, Eduardo. Acho que o Sebrae deveria atuar na promoção da redução das desigualdades de gênero e de etnia por meio do empreendedorismo. Afinal, o principal objetivo do Sebrae é promover o desenvolvimento sustentável apoiando o empreendedorismo; para mim, um desenvolvimento sustentável deve ser, necessariamente, inclusivo.
Há um mundo de trabalhos que podem ser feitos com esse viés, e acho que nós, trainees, podemos ser os agentes dessa mudança de postura do Sebrae.